I simpósio ao contrário: pré-estórias

Fundado em 2024 na Universidade Federal de Santa Catarina, o ao contrário – laboratório experimental de estudos da literatura e seus avessos dedica-se a promover incursões especulativas às florestas – reais, imaginárias, de papel, de carne e osso, em forma de gente, bichos, espíritos, sujeitos escritos e inscritos, nomes e arcanos – que se abrem quando essa estranha instituição chamada literatura se desconstrói pela invasão bárbara de textos outros de sujeitos outros, alter-modernos, contra-modernos, que jamais foram modernos. Trata-se de nadar contra a corrente, no contrafluxo, a contra-rio, ao contrário, com e a partir desses outros, desses contrários à tradição moderna e ocidental, revirando a literatura e a história literária do avesso, e prestando atenção a isso que por muito tempo não foi considerado literário, os não-ditos, as entrelinhas do texto literário e sua história.
Essas incursões – nossas pesquisas – se materializam em grupos de debate, como o realizado em 2026.1, que começou com a leitura de Araweté: os deuses canibais e se encerrou com a d’Os imortais; em publicações, como nosso panfleto aperiódico avesso; e em eventos, como esse nosso primeiro simpósio. Nele, além de expormos as pesquisas dos integrantes do laboratório e lançarmos um ebook que sintetiza as atividades desses dois primeiros anos, cadernos de campo especulativo: primeiro tempo (2024-2026), receberemos dois convidados muito especiais: Eduardo Viveiros de Castro, que fará a conferência de abertura esboçando uma ontologia pré-figurativa e cuja importância é indiscutível, tanto para o pensamento em geral quanto para nosso núcleo em particular, tendo vindo de uma expressão sua (“identidade ao contrário”) o nome de nosso coletivo de pesquisa; e Paulliny Tort, que encerrará um evento, conversando conosco sobre seu romance, verdadeiro marco da literatura não só brasileira, que investiga a pré-história do gênero Homo, da espécie sapiens, da linguagem, do ritual, da figuração, da especulação, da arte, da literatura.
Fruto de uma disciplina oferecida pelo professor Tiago Guilherme Pinheiro em 2026.1 no Programa de Pós-Graduação em Literatura da UFSC, o colóquio propõe-se a percorrer alguns dos caminhos da vasta e múltipla produção reunida, metonimicamente, sob o nome de Patrícia Galvão. Já nessa formulação emerge um dos problemas centrais que acompanhará nossos percursos: o das atribuições. Ao considerar a multiplicidade de autorias como procedimento poético-político (e não jurídico-mercadológico), esse conjunto de textos tensiona, de modos diversos, estruturas materiais, históricas e simbólicas que, dissimuladas sob a aparência de transparência, atravessam e estruturam o campo discursivo denominado “literatura”.
Nesta palestra, propõe-se um percurso em torno do romance Los detectives salvajes (1998), de Roberto Bolaño, a partir de uma ideia que aparece em algumas das últimas intervenções públicas do escritor chileno, no começo dos anos 2000: a saber, a do “triunfo de Dionísio”. Procura-se interrogar de que maneira essa noção se articula nos termos de uma política literária que, por sua vez, já estaria em jogo no romance. Interessa mostrar como podemos lê-lo não só a partir do ponto de vista do naufrágio das utopias revolucionárias e artísticas do século XX, mas também como um modo de encarar seu próprio presente de enunciação, deslocando o problema da busca pela modernidade em direção a uma pergunta pelos modos de habitar o contemporâneo.

Desde 2024, o Grupo de Estudos em Literatura e Modernidade (GELMo/UFSC) reúne estudantes com projetos de pesquisa em literatura e artes visuais dedicados à leitura crítica da modernidade. Embora muito heterogêneos, esses projetos convergem no rigoroso exame dos impasses do Ocidente moderno e suas narrativas legitimadoras, explorando as linhas de fuga que, entre a crítica e a criação, nos permitiriam imaginar, hoje, alternativas para a catástrofe conduzida pelo capitalismo planetário. Nesse sentido, o que mobiliza as pesquisas do Grupo é, de fato, uma exigência coletiva: trata-se da necessidade de reelaborar a ideia do porvir — ou seja, de abrir caminhos para outras formas de vida em comum, fora do capitalismo —, num contexto em que o futuro parece coincidir, cada vez mais, com a própria exaustão do mundo, a ser vivida como um presente sem termo.
A literatura é espaço de aprofundamento crítico sobre o mundo em que se insere e sobre os mundos que inventa nos romances, contos, poemas e dramas. Com a atenção voltada para os dilemas do presente, a literatura brasileira contemporânea dialoga com o mundo colocando uma lupa sobre seus problemas ou imaginando alternativas, atalhos e soluções enquanto provocativamente parece dar as costas à realidade circundante. O XII Simpósio sobre a Literatura Brasileira Contemporânea, que acontece na Universidade de Brasília entre os dias 28 de junho a 1º de julho de 2026, se propõe a discutir as crises do presente e da própria literatura a partir de textos contemporâneos, lidando com questões como a emergência climática, as crises migratórias, o desmonte dos direitos trabalhistas, os ataques à liberdade de expressão, o questionamento e o declínio dos valores democráticos e os impasses da leitura e do letramento literário
Suellen Cordovil, pós-doutoranda do PPGLit, sob supervisão de Marcio Markendorf, ministrará o minicurso NATUREZA MONSTRUOSA: CORPO, ECO-GÓTICO E TERROR NA AMAZÔNIA.